Não foi daquela que resolvi meu problema bancário, mais uma vez terei que arranjar um tempo para visitar a instituição, agora acompanhado de uma pilha de documentos para provar o que já foi pago. Mesmo com o trabalho de revirar quinhentas gavetas fico aliviado em saber que acumular papéis não é tão ruim assim, estava tudo ali, apesar da aparente bagunça, inevitável pela quantidade de extratos, notas, cartão de aniversário, recibos, declarações, avisos, garantias, cartas ameaçadoras, segundas vias e boletos que chegam a toda hora. Dificil colocar ordem quando o volume de compromissos é maior do que a disponibilidade em arquiva-los, mas sigo a regra básica da impractibilidade, se não dá para arrumar, joga em um escaninho e torce para que não precise nunca mais ser resgatado.
Pois como para tudo há um lado positivo, esta busca revelou, além de papéis dados por perdidos, uma parte da minha mais remota história. Afinal, fora os afetos, e talvez até alguns deles, tudo um dia foi comprado, o conforto da cadeira que agora sento, a TV que foi de ultima geração e que acabei dando para a empregada, o trabalho dela, o sapato que me apertou os calos, o apartamento deixado para a ex-esposa, o carro que sempre esteve alienado, o psiquiatra para poder suportar esta realidade, a pensão dos meninos, os cursos não completados, o terno para raras celebrações, impostos exagerados, empréstimos de urgência para manter um padrão forçado. Senti-me um arqueólogo da própria angústia, a sina da classe média também é acumular provas de sua desgraça. E estavam todas ali, no aguardo, misturados aos salvadores documentos requisitados, assim espero.
27 de novembro de 2009
Certificado
26 de novembro de 2009
24 de novembro de 2009
Agenda
Hoje é um daqueles dias em que eu preferia pular. Embora esteja de folga, minha agenda começa agora com uma visita a Receita Federal. Pelo visto caí na malha fina, mas vou aproveitar para ver a quantas anda minha situação fiscal. Não sou nenhum Marcos Valério, mas por alguns trocados posso ser enquadrado e ainda sofrer o risco de ter que desembolsar um pouco mais para o Bolsa Família. Por falar em Bolsa não tardará muito para que eu venha a solicitar a minha, porque, depois de tantos descontos, como na frase de Cartola, “o que me resta é tão pouco quase nada”.
A tarde tenho uma revisão odontológica, que se inicia as 13 horas sem prazo para acabar. Sofro da Síndrome de Pânico a cadeira de dentista, sem crase porque é genérico, qualquer dentista, e não é necessário sequer ligar o motorzinho para que me contraia e sofra inteiro.
Pior que cadeira, é banco, negociar com gerente de banco, e esta é a tarefa para o horário do almoço. Pela terceira ou quarta vez tenho que provar um pagamento já realizado, mas parece que o sistema não reconhece meus comprovantes, nem a gerente que troca a cada visita. Instituição financeira é fria, faz rodizio de funcionários para que à gente não se apegue.
Almoço. Fome, não tenho, é que pelo menos a sibutramina esta fazendo efeito, com um preço, insônia e falta de humor. Esta madrugada acordei algumas vezes e em todas refiz este trajeto: receita, banco e dentista, sem contar que a noite próxima trabalho inteira. Serão mais dezesseis horas sem voltar para casa, e, como ja disse outro dia, com o risco de a qualquer hora ser atacado pelo meu cão que, assim como o gerente, não mais me reconheça. Paciência e disposição para manter a índole, embora minha vontade seja chutar o balde, ou enfiar a cabeça sob um saco, ou dar um bote no cachorro. Falta me ligarem de um de dos empregos paralelos, juro que, aí sim, perderei o tino, tenho tantos bicos que não sei onde apoia-los, mas isso é fora da agenda, é o que não é planejado. Só queria puder pular este dia, fazer dele um feriado, ou conseguir dormir sem compromissos, mesmo num dia de folga, cheio, atulhado.
23 de novembro de 2009
Clima
Ontem à beira do São Gonçalo, dava para ver a altura da água costeando o Porto. Por ali, no início da década de oitenta, vi pessoas saindo de casa de barco. Não falta muito para que isso se repita.
A previsão é a do lado, temporal, pelo menos nos próximos três dias.
Não sei por que não fui quem fiz
Encontrei esta imagem ao acaso, não conheço os créditos a não ser o nome “November Rayn” que acompanha o arquivo, mas, seja de onde, ou de quem for, é a cara do que estou vivendo agora.
22 de novembro de 2009
Domingo
As Time Goes By – Michael Feinstein
Cliquei no link acima para “acalmar os
nervos”. Todos dormem nesta casa, e apesar de estar desperto há mais de duas horas, não me animei abrir as janelas para ver o clima.
A noite foi de temporal, o que não é novidade, escrevi em algum lugar: “sábado, meus amigos ligam com e esperança de ter um programa com esta chuva, sugiro passeio de Arca.”
Depois da intolerância hoje estou mais aliviado. Tento, sem que consiga, lembrar algo de agradável que me ligue a algumas pessoas do passado. Posso controlar o que é consciente mas não consigo roteirizar os sonhos na madrugada, e é aí que se aproveitam os desafetos, fazem cenas intermináveis de tortura e de chantagem, ameaçam o dia que se aproxima com críticas e maldades. Levo um tempo, mesmo acordado, para filtrar o que é deles sobre a realidade. Graças que encontrei o link acima, “As time goes by”, até onde vá, quem sabe à eternidade.
21 de novembro de 2009
Pelotas
Nasci na cidade da humilhação. Houve um tempo, que para qualquer viagem, carregava de cor pelo menos uma meia dúzia de chacotas prontas como técnica para resposta ou intimidação aos engraçadinhos que começassem ridiculariza-la. Antes da preocupação com marketing, valia o comentário de quem quer que fosse, de porteiro de hotel a manobrista, alguém que identificasse, pelo registro ou placa do automóvel, do local de onde eu me originava. Era nome especial de estrada, aviso de boas vindas, detalhes sobre a água, condições de nascimento, histórias sobre gaúchos afetados, a cada situação uma anedota desqualificada. Cresci, melhor, crescemos, com a imprensa e televisão reforçando esta imagem.
Não cabe explicar motivos, embora teorias não faltem, nem tentar justificar o que já esta estabelecido, e embora a alguns ainda incomode, prefiro não ficar me defendendo, nem por mim, nem por meus filhos, porque este e outros preconceitos são reflexos apenas da ignorância.
Escrevo para não me esquecer o que resiste, e que, apesar do que é dito, assumir com orgulho o lugar que vivo, sem precisar de defesa ou acrescentar piada, nem trocar registro e esconder placa. Nasci na cidade da humilhação, mas, ainda bem, não me incomodo mais com isso.
Para DSM.
20 de novembro de 2009
Breve
Depois de 24 horas de trabalhos forçados, retiro as correntes das pernas e saio a rua para recuperar o perdido. No entanto, a dor de cabeça e o sono me impedem de aproveitar melhor a liberdade, então, jogo-me na cama sem sequer tomar um copo de leite, e sonho, por horas, que continuo trabalhando. Amanhã ainda estarei de ressaca, domingo, como sempre, será um dia morto, segunda acabou o indulto, e retomo cansado a rotina de meu expediente.
19 de novembro de 2009
Disfarce
Não sei como vai ser o primeiro fim-de-semana sem minha Nikon. É que surgiu uma oportunidade interessante, além da possibilidade de haver uma trégua das chuvas, sobre a qual prefiro não criar expectativas.
Para quem estava em dieta o porquinho mineiro com batatas gratinadas e arroz com brócolis, oferecido noite passada pelo meu irmão, caiu como um tijolo, por isso não repeti o ritual da balança, passando reto pela frente da farmácia.
A jornada de trabalho de hoje é de 24 horas, o que quer dizer que só saio daqui amanhã no final da tarde. Desta vez trouxe duas mochilas, a de costume com as traquitanas, e outra com lanches e perfumaria. É que o clima é estranho nesta época e não imagino como meus hormônios vão reagir a estresse e falta de banho. O chuveiro é improvisado, teria que ficar sobre o sanitário, escolho os disfarça-cheiros a cair no chão estatelado.
Fui ver, em caso de falecimento definitivo, o valor de uma câmera nova, mas mais do que o preço, não me entusiasmei por nenhuma das que ficavam ao meu alcance. Estou acostumado com os recursos e facilidades e não tenho vontade de fazer cursinho para novas tecnologias.
Quase escuto o grunhido do suíno no meu estômago, não sei o que de fato esta acontecendo, mas começam os primeiros movimentos, tento não imaginar o destino dos vegetais envoltos a queijo, percebidos como náusea. Lembro, com receio, que estarei por muito longe de casa.
O sanitário sob o chuveiro não parece adequado. Voltam na rua as trovoadas, anuncio de grande tempestade. Melhor evitar constrangimento e alimentar, da máquina, a mais profunda saudade.
18 de novembro de 2009
Fotografia
Por módicos duzentos “real” minha camera voltará a atividade em alguns dias, assim prometeu o técnico do qual tão mal me falaram, mas sou homem de fé, e como diz a Vera, é apenas uma máquina, mas me faz feliz.
Maria Eduarda por Camafunga
Comunicado
Nada declararei a não ser que me engane. Não sou cria de ninguém, nem me importa a genealogia. Se mostro meus trabalhos é para dividir dor, e não tenho ressentimentos se, ato falho, exponho junto teus sofrimentos. São tantos, que espero um dia os reunir em livro, são breves como pequenas crônicas, porém fortes e pungentes. Não quero que te esqueças, desejo ser menos efêmero do que uma frase solta, má e dita. Como uma nota a ser repetida. Como uma declaração, que embora aguarde, mantenha-se muda, omitida.







Ando sem paciência, esse é mais um sinal de vivência confundido com rabugisse. Para que ler um livro desinteressaste apenas para passar o tempo se reclamo que o tempo é escasso? E curto, pelo menos na perspectiva da contagem regressiva da vida onde estou mais perto do 3 do que do 7. O mesmo acontece com as relações humanas, não consigo extinguir mais horas a quem não me acresce, nota que acrescer não é uma ação egoísta, pode ser também por uma doação afetiva sem permuta, algo que me satisfaça pelo prazer de me sentir util. Então util é a prioridade, meu tempo pede ser produtivo. Não suporto as frivolidades, as conversas vazias, os valores que não compartilho. Por isso me chamam de rabugento, em breve apenas de velho, porque não quero ver maus filmes, nem ler livros sem sentido, muito menos perder tempo com quem não me identifico.